Um caminho para dentro de si

Paulinense percorre cerca de 800 quilômetros a pé em um dos mais longos trajetos do Caminho de Santiago de Compostela

Por Fernanda M. Valente
Fotos: Nelson Joanine/Arquivo pessoal

Uma viagem inesquecível e cheia de experiênciasque ficará guardada para sempre na memória de Nelson Joanine. Nesse ano, ele estava fechando um ciclo de sua vida e, antes de iniciar outro, quis se desafiar a fazer uma peregrinação que o faria caminhar nada menos que 800 quilômetros.

“Eu havia acabado de me aposentar e de completar 35 anos de casado e 35 anos na Syngenta, e estava me preparando para começar uma nova carreira, a de consultor de empresas. Por isso decidi encarar esse desafio e provar para mim mesmo que eu era capaz”, revela Joanine, que é formado em engenharia agrônoma.

Após ler bastante, se informar e assistir a filmes sobre o assunto, ele escolheu fazer um dos caminhos franceses, o que parte de Saint Jean Pied de Port, na França,echega à Santiago de Compostela, na Espanha, um dos mais longos trajetos entre os inúmeros percursos que levam os peregrinos até o famoso destino.

Ensinamentos

Ao todo, ele levou 36 dias para atravessar os cerca de 800 quilômetros entre uma cidade e outra, nos meses de abril e maio desse ano. “Essa viagem me trouxe muitos ensinamentos. O primeiro deles foi o do desapego. Eu precisei fazer um exercício de priorizar apenas o essencial. Saí daqui com uma mochila com pouquíssimas coisas, pesando 10 kg e, nos primeiros dias, ela já parecia pesar uma tonelada. Aos poucos fui me desfazendo de mais e mais coisas, até terminar o trajeto com cerca de 7 kg nas costas. É incrível como podemos viver com tão pouco”, comenta.

Um dos pesos que ele insistiu em carregar, mas que valeu à pena, foi sua máquina fotográfica. Além das memórias e ensinamentos, Joanine trouxe consigo mais de sete mil fotos dos lugares por onde passou. Um mais lindo que o outro, diga-se de passagem. Eu tive o privilégio de ver um álbum resumido e fiquei encantada com tanta beleza (as fotos que ilustram essa matéria são dele).

Apesar de ter se preparado fisicamente durante cerca de dois anos, ele garante que não foiisso queo fez terminar o percurso. “Não são as pessoas preparadas fisicamente que chegam à Santiago de Compostela. O que determina se você vai chegar ou não será sua atitude perante às adversidades. O preparo físico facilita, é verdade, mas é a determinação, a persistência, a perseverança e a fé que te levam até lá”, assegura o peregrino, que viu muita gente desistir pelo trajeto, entre eles uma maratonista e um piloto da aeronáutica.

Chuva, frio, vento,incontáveis bolhas nos pés, falta de privacidade e individualidade foram alguns dos obstáculos enfrentados pelo paulinense.“Uma das coisas que eu aprendi durante essa experiência é que não existe caminho sem dor. A dor é constante. Por mais que você se prepare, ela vai existir, então você tem que aprender a conviver com ela, se não, você não chega”, afirma. Enquanto conversávamos, ele me mostrou fotos de pessoas usando joelheiras, caminhando trechos de costas, gente mancando e que, quase inacreditavelmente, chegaram antes que ele no destino final.

“Não são as pessoas preparadas fisicamente que chegam à Santiago de Compostela. O que determina se você vai chegar ou não será sua atitude perante às adversidades. O preparo físico facilita, é verdade, mas é a determinação, a persistência, a perseverança e a fé que te levam até lá” – Nelson Joanine

Renovação: Nelson Joanine durante momento de fé na Cruz de Ferro, no alto de um dos Montes de Leon, o Monte Irago; as pedras que aparecem na foto foram depositadas pelos próprios peregrinos, desde o século X; o peregrino paulinense deixou duas pedras e uma imagem da Desatadora dos Nós, que levou daqui especialmente para essa finalidade

Experiências de fé

Joanine saiu sozinho do Brasil para fazer o percurso. Em busca de um desafio a ser vencido e um encontro consigo mesmo, ele também esbarrou em solidariedade e fez novas amizades.
“Às vezes você está andando e tem bastante peregrinos por perto, mas às vezes você fica horas caminhando sozinho.  Eu conheci bastante gente durante a peregrinação, fiz novos amigos que quero manter pela vida toda, e me deparei com gestos nobres que não esquecerei jamais”, garante.

Durante o trajeto, Joanine teve uma espécie de intoxicação alimentar. Sem clínicas por perto, ele teve que caminhar dois dias e 40 quilômetros até o hospital mais próximo para ser atendido. Mesmo medicado, dias depois o incômodo ainda persistia. Ele ficou sabendo que havia um médico coreano entre os peregrinos e, ao encontrá-lo, mesmo sem conseguir conversar por palavras e se comunicando apenas por gestos, o profissional lhe atendeu ali, na estrada. O médico o consultou, fez massagens e ainda aplicou agulhas de acupuntura. “Foi depois desse momento que comecei a melhorar, foi impressionante”, recorda.

O caminho tem ares místicos e é cheio de marcos e pontos em que os peregrinos escolheram para depositar objetos e demonstrarem sua fé. Em um deles, um dos principais do Caminho,

a Cruz de Ferro, que fica no alto de um dos Montes de Leon, o Monte Irago, Joanine viveu uma experiência mágica. “Um lugar com uma energia indescritível, um momento único e de fortes emoções. Depositei ali duas pedras com pedidos muito especiais e também uma pequena imagem de Nossa Senhora Desatadora dos Nós que me acompanhou desde o Brasil e que levava um pedido muito especial. Um dos momento mais marcantes de minha vida”, menciona.

Planejamento diário: o peregrino paulinense acordava cedinho, saía entre 6 e 7h, percorria de 23 a 25 km (entre 6 a 8 horas dependendo das condições da estrada e do clima)

Planejamento

De acordo com Joanine, o planejamento diário é uma das mais importantes etapas da viagem. Ele acordava cedinho, saía entre 6 e 7h, percorria de 23 a 25 km por dia, percurso esse que durava de 6 a 8 horas dependendo das condições da estrada e do clima. Quando chegava no albergue onde passaria a noite, ele já garantia sua cama, tomava banho, lavava a roupa e cuidava dos pés. “Esse ritual era necessário para garantir que as feridas dos pés não infeccionassem e as roupas secassem até o dia seguinte. Depois eu tinha um tempo livre para descansar e conhecer a cidade ou vilarejo onde eu fi caria hospedado”. Ele conta que todo o trajeto é muito organizado, o caminho é todo sinalizado e estruturado com tendas de alimentação e albergues. Mas adverte que, para ter acesso a tudo isso, é necessário fazer uma Credencial do Peregrino, que funciona como uma espécie de passaporte, que recebe carimbos dos lugares por onde passou para, após a finalização do caminho, receber um certificado.

“O final é muito emocionante. Chegar em Santiago de Compostela foi uma sensação indescritível. Saber que consegui chegar até o fim me fez acreditar que posso superar qualquer obstáculo”, alega.

Casado com Silvana Joanine e pai de Nelson e Hugo, ele acrescenta que um dos seus objetivos com o caminho também foi agradecer por tudo que a vida já lhe deu, tanto na vida profissional quanto pessoal. Toda essa vivência mexeu muito com ele e, no momento, está escrevendo um livro no qual relativiza as experiências do caminho com a vida empresarial.

CURIOSIDADE

A distância oficial do Caminho que Nelson Joanine escolheu para fazer é de 799 km, descrita em seu Certificado de Peregrino. Mas de acordo com o aplicativo utilizado por Joanine em seu celular, durante sua peregrinação ele caminhou 820 quilômetros e deu mais de um milhão e duzentos mil passos durante os 36 dias de peregrinação.

A chegada: “O final é muito emocionante. Chegar em Santiago de Compostela foi uma sensação indescritível. Saber que consegui chegar até o fim me fez acreditar que posso superar qualquer obstáculo”